O teatro simpático para Joinville

Establishment da indústria cultural: a cena teatral joinvilense

TEXTO: James Klaus Miers

A história do teatro em Joinville demonstra: a elite social, econômica e política exerce poderio determinante sobre o conjunto artístico da cidade. Essa afirmação de poderes estabelecidos controlando as tendências culturais não é tão recente. Já era perceptível na década de 1880, quando surgem as primeiras indústrias metalúrgicas , têxteis e o comércio de erva-mate consolida os novos e ricos comerciantes vindos do Paraná. Uma elite luso-brasileira passa a concorrer com a hegemônica elite germânica local. Nessa época, a cidade contava com muitas associações culturais de ginástica, remo, tiro, canto e teatro, tudo num contexto diferenciado por ideologias e idioma.Este último foi motivo para proibir, no final de 1939, toda e qualquer peça teatral em idioma alemão durante o governo de Getúlio Vargas, dispersando boa parte dos grupos.

Mais adiante,em 17 de agosto de 1968, a peça Os palhaços, de Miraci Dereti, seria estreada pelo Grupo Teatro Renascença, mas é impedida pela censura local. Professor na escola Bom Jesus, Dereti era questionador e sua peça, anunciada para estrear às 20h30 na Sociedade Harmonia Lyra, propunha uma linha de vanguarda. Mas essa proposta modernista e de conteúdo crítico não foi simpática ao regime ditatorial militar daqueles tempos. Os palhaços estava na mira da vigilância política e policial de Joinville e não obteve licença da censura federal. Alívio para a parcela social incomodada com essa “história de comunistas”. Não pôde ser estreada na ex-colônia Dona Francisca, mas em Blumenau um juiz regional liberou a peça, que foi encenada  no dia 21 de setembro de 1968, com casa lotada.

Décadas depois, uma filial da Escola do Teatro Bolshoi da Rússia é inaugurada em Joinville. O balé é o forte do Teatro Bolshoi – não o teatro tradicional – e alavanca a construção, em 2001, do Teatro Juarez Machado, com capacidade para 500 pessoas. Outros espaços alternativos foram criados em Joinville, como na sede da Associação de Moradores do Bairro Itinga (Amorabi), palcos ao ar livre na Praça do Bosque, no Costa e Silva, na praça Tiradentes, no Floresta, no Mercado Municipal, na praça Nereu Ramos e em centros comunitários. Escolas também possuem espaços para o teatro, como no anfiteatro do Bom Jesus/Ielusc. Aliás, o teatro, a rigor, não precisa de um local específico para acontecer, pode ser ao ar livre, em qualquer espaço. Modalidades como a manipulação de bonecos também são uma realidade na cena atual. O teatro lambe-lambe, onde o espetáculo é minimalista e apresentado para um ou dois espectadores por vez, faz parte desse contexto.

Atualmente, existe o teatro feito em Joinville por mais de 200 atores, mas que a maioria dos cidadãos não enxerga. Essa discriminação pode ser comprovada, por exemplo, quando uma peça de atores “globais” chega à cidade: ingressos que custam entre R$ 50 e R$ 80 esgotam rapidamente nas bilheterias. O glamour e a elite desfila sob os holofotes e nada é acrescentado ao cotidiano da cidade. Por outro lado, quando uma peça joinvilense ou uma mostra local acontece, o prestígio é, na maioria das vezes,  abaixo do esperado. Espetáculos de boa qualidade ao custo de R$ 10, como na última edição da CENA, deveriam estimular o público. Mas a coisa vem melhorando aos poucos, pois um público cativo acompanha a produção local, se agendando para a programação.

Quanto aos grupos, podemos citar os mais atuantes, como a Atos Teatro, a Cia Didois, a Cia Joinvilense de Teatro, a Cia Rústico Teatral, a Cia Studio em Cena, a Cia de Teatro da Univille, a Vai! Núcleo de Pesquisa em Artes Cênicas, a Dionisos Teatro, a Essaé Cia de Teatro e Dança, os grupos teatrais Fio de Ariadne, Canto do Povo, Os Navegantes da Utopia, a La Trama Cia Teatral e o Teatro Novo Tempo.

O público se divide entre os mais abastados, que preferem as estrelas de fora – como se aquilo que é produzido aqui não tivesse qualidade para agradar-lhes à cultura sofisticada – e o grupo dos que aprenderam a apreciar o teatro local. Neste segundo, incluem-se estudantes, o público infantil das escolas (onde regularmente acontecem apresentações), intelectuais e trabalhadores da indústria, que são “presenteados” pelos patrões com peças motivacionais.

Fora deste contexto, o cidadão comum não foi educado para, deliberadamente, apreciar autores como Jean-Paul Sartre e seu inferno, Nelson Rodrigues e seu Vestido de noiva, Os pequenos burgueses de Gorki, o Galileu Galilei de Brecht encenado por José Celso Martinez Correa ou o existencialismo de Entre na releitura da dramaturga joinvilense Morgana Raitz.

A paixão pelo jogo interativo-dramático do teatro é primordial para processar o lúdico contido, absorto e trancafiado na alma do espectador. Sem isso, a arte teatral não será páreo para as invencionices da informática, da hipnose coletiva servida pela televisão ou dos neo-pseudo super-heroes gringos ressuscitados sistematicamente pela sétima arte. O papel do teatro é o de colocar o ser humano a se questionar, confrontar-se consigo mesmo. Um jogo social. Uma arte social.

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