Retratos da vida

Em (R)Existência, o público é autor de sua própria história

TEXTO: Rita de Cássia Wischral

O Centro Cultural Deutsche  Schule é palco para um dos espetáculos da CENA Nove, a  Mostra de Teatro de Joinville, do dia 17 ao dia 25 de agosto de 2012. (R)Existência traz para o público um espetáculo onde a vida é representada como fruto das nossas próprias escolhas, uma trajetória entre altos e baixos, entre o que é claro e o que é escuro.

A primeira parte da encenação é apresentada nas janelas da fachada do prédio de patrimônio histórico e no pátio frontal. Nessa parte, os atores misturam-se entre os espectadores nas cenas do cotidiano e das transições da vida humana. Na segunda parte do espetáculo, o público é convidado a assistir às performances dos atores nas salas de dentro do prédio.

(R)Existência distribui  simultaneamente nove cenários onde as pessoas podem escolher qual apresentação preferem assistir, sem o compromisso de seguir uma ordem determinada. Em uma das salas térreas do prédio, a cena é de um idoso sentado em frente a uma mesa com um tabuleiro de xadrez, jogo para duas pessoas que requer estratégia, paciência e reflexão. Uma pequena falha pode pôr tudo a perder. Do outro lado da mesa está uma cadeira vazia. Por vezes o idoso levanta-se, vai até a janela e fica a olhar, na desgastada esperança de que alguém possa chegar e compartilhar com ele alguns momentos de entretenimento e conseguir romper o seu imenso vazio. Ninguém aparece. Ele volta, observa o tabuleiro, senta-se e move lentamente uma peça do jogo. Levanta-se e volta para seu lugar inicial, recolhendo-se. A cena mostra o preço da solidão, na sua individualidade, pois ela é única para cada ser humano.

Cada cena de (R)Existência evoca fatos do cotidiano que ganham dimensão universal (FOTO: Jéssica Michels)

(R)Existência informa o espectador com fidelidade sobre as questões que envolvem condições desumanas ou tratamentos indignos. Algo que se percebe, por exemplo, na cena do manicômio. A realidade dessas instituições no Brasil e os inúmeros casos de denúncias que se vêem nas reportagens televisivas são sugeridas no espetáculo. É curioso ver as expressões de revolta, de pena ou até mesmo de indiferença nos rostos do público quando estão diante de pessoas com padrões mentais diferentes das suas realidades. As primeiras impressões que a plateia têm são de  pessoas babando, andando de um lado para o outro balbuciando palavras incompreensíveis, sujas, mostrando que não existe o menor acompanhamento especializado, sendo impossível haver uma recuperação em um ambiente desses. Nesse espetáculo atores de qualidade circulam nas cenas, eles mexem e remexem nas emoções, nos sentimentos de todos os presentes.

As interpretações, dirigidas por Sabrina Lermen, estimulam o pensamento e trazem para cada espectador as responsabilidades da sua própria existência. Sabrina mostra ao público que podemos ser autores da nossa própria história através das escolhas, das desconfianças, nas omissões, nos erros e acertos. A vida humana é um constante ir e vir, um processo contínuo de mudanças que movem a nossa sobrevivência ou o nosso naufrágio. Nada tem sentido sem o ponto de vista de cada um, sem o olhar da alma humana que organiza e dá forma às coisas, para que cada pessoa possa chegar ao encontro de si mesma com equilíbrio e amadurecimento.

Mesmo daqui a alguns anos, (R)Existência permanecerá atual na sua essência, resistente ao tempo e ao espaço. Um espetáculo que precisa ser visto em turnê pelo Brasil, mostrando o quanto há de qualidade no teatro catarinense.

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