Vida e morte como nossas matérias-primas

Meteoros borra as fronteiras entre o espetáculo e o cotidiano

TEXTO: Bruno Arins

Para alguns, contar uma história é sempre um desafio.  Há uma necessidade latente de fazer o ouvinte compreender muito além do desenrolar dos fatos.  Anseia-se convencê-lo dos detalhes e de sua importância exatamente da forma como a história foi vivida. No teatro, esta suposta dificuldade pode ser tratada com o uso de elementos que servem de argumentos: cenários, objetos, figurinos, iluminação, trilha, tudo o que é permitido quando se trata de produção teatral. Este não foi o caso da Téspis Cia de Teatro, que resolveu fazer de Meteoros, apresentada no último sábado (25), na noite de encerramento da CENA Nove, um depoimento profundo, envolvente e emocionante.

Apropriando-se delicadamente de um texto cortante e sedutor de Max Reinert, os dois atores em cena se revezam para falar de suas angústias acerca do universo que os cerca, aproveitando-se apenas de holofotes que caminham pelo palco e, claro, de sua atuação persuasiva – que não é nem “emprestada”, é vivida.  São dois pontos de vista de uma mesma história, duas interpretações, dois sentimentos. Porém, uma mesma angústia: vida e morte. Um deles mata para sentir-se vivo; o outro vive como se sentisse morto. Ambos, entretanto, equilibram-se em suas agonias, transmitindo veracidade, exalando dor e dividindo ansiedade com o público. Afinal, quem é a verdadeira vítima? Qual deles é o culpado, se o mundo é que quis deles que fossem assim? Aliás, para que procurar vítima e culpado se todos nós na vida somos ora vítimas, ora culpados?

Personagem ironiza a necessidade do artista em entreter o público (FOTO: Glauber Ronsani)

“Se eu fosse uma atriz, me sentiria pressionada a fazer algo para entretê-los”, repete a personagem logo no início do espetáculo. Como se o entretenimento devesse existir somente do lado de lá do palco. Pois do lado de cá, da vida, tudo quase que é só entretenimento. Basta perceber o texto de Meteoros em que tudo é senão a nossa própria rotina, ou pelo menos da maioria. Agonia, dor, sofrimento é o que vivemos e morremos diariamente. Talvez por isso não são necessárias outras linguagens além do texto e da iluminação para representá-los e compreendê-los. Porque tudo na vida é ida e vinda. É encontro e despedida. É morte e vida. Vida e morte.

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