O caminho do carteiro

Sem apelos morais, espetáculo de sombras inspira a divagar

TEXTO: Priscila Hudler

Cachinhos Dourados tem um recado para dar para os personagens dos clássicos infantis. Os destinatários são a Bruxa, o Príncipe e a Princesa, o Esquilo, o Gigante do Pé de Feijão e o Lobo Mau. Quem fica responsável por esses recados é o Carteiro, que viajará com sua bicicletinha por florestas, bosques sombrios e vales encantados.

Ele entrega as cartinhas uma a uma nessa pseudofábula narrada pela Cia Essaé. Digo pseudofábula porque acredito que, para ser fábula, uma narrativa precisa ter um certo apelo moral, enquanto este espetáculo narra uma história sem pretensões de ensinar e, na verdade, ensina mais sobre a estética e sobre alguns mecanismos de linguagem do que outras representações.

O ator Cássio Correia sai de trás da cortina de sombras para interagir com o público infantil (FOTO: Glauber Ronsani)

Mas voltando: a história é baseada no livro O carteiro chegou, de Allan Ahlberg, e foi recontada nessa CENA Nove. A adaptação da obra para o teatro se deu por silhuetas por trás de um pano branco, intercaladas por aparições reais do carteiro, personificado pelo ator Cássio Correia.

O foco maior no trajeto do carteiro se destacou com a força da narrativa lenta. Acredito que se aproxima um pouco com o exercício de paciência e organização mental que eu tenho que ter para escrever este texto quando, na verdade, se a coisa demora a se desenrolar, tendo a largar tudo e ir fazer outra coisa. Mas não havia a possibilidade de pegar o controle remoto e trocar de canal naquele caso. O trajeto que o carteiro percorre com sua bicicletinha é longo, longo, longo… Num lugar bem distante do nosso, onde não se conhece e-mails nem sinais de ondas.

O que não quer dizer que se tornava cansativo. E nem deve. Mas tenho que confessar que em determinados pontos me flagrei divagando e as silhuetas se tornaram embaralhadas. Enquanto o carteiro percorria o longo, longo trajeto, cabia a nós da plateia curtir a paisagem combinada com a trilha sonora criada pelo músico de Joinville Fábio Cabelo.

O dia do carteiro terminou com uma boa noite de sono pela sensação do dever cumprido. O dia seguinte amanhece com mais um maço de cartas para entregar. É quando Cássio surge de trás do pano para entregar mais essa leva. Possivelmente essa foi a primeira vez que as crianças da plateia que receberam cartas interagiram em uma peça de teatro.

Ah sim: quanto à mensagem da Cachinhos Dourados, não vou contar aqui qual era.

Anúncios
Esse post foi publicado em ESPETÁCULOS. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s